A graça no contorno do abraço

11/05/2018

"Fui a Confins buscar o Igor, produtor de cinema, que, vindo do Rio, coordenaria a gravação do clip do DT, a ser exibido antes do filme "Eu Só Posso Imaginar". Deixei-o na casa do pastor Márcio e saí, mas não antes de receber gratidão, honra e um carinhoso abraço da Ana.
Estacionei o carro em frente de casa e fui a pé buscar o vestido alugado da Gi, no edifício Mariana. Minha caçula iria declamar "O Navio Negreiro, de Castro Alves, no Sarau Literário do Colégio Batista.
No caminho de ida, ao atravessar a passarela sobre a avenida do Contorno, refleti a respeito da essência da adoração. Contrastei a canção do culto de domingo com o texto de João 4, que mostra o Pai encontrando adoradores quando os filhos ousam romper fronteiras relacionais.
A Gi foi esplêndida ao declamar seu texto, pois lindamente falou com segurança e sensibilidade.
No dia seguinte fui devolver o longo vestido verde. Fiz o mesmo percurso, porém, com passos mais lentos. No caminho de volta, ao inciar o trajeto da passarela, uma jovem me pediu cigarro; eu disse que não tinha. Ela então pediu dinheiro para comprá-lo; eu, com tristeza, abri a carteira para dar-lhe. Mas, para meu alívio, não tinha uma nota de dois reais. Fechei a carteira dando-lhe resposta negativa. Foi quando a jovem persistente me pediu dinheiro para tomar café. Novamente abri a carteira para retirar uma nota de cinco reais, mas a que encontrei era de dez. Exitei por uma fração de segundos, mas decidi dar-lhe esse valor mesmo. E nestes segundos de dúvida perguntei-lhe: "o que você tem feito"? Ela achou que eu queria saber de seu trabalho e disse que lidava com reciclagem. Como eu não queria que ela pensasse que minha oferta fosse condicionada a submeter-se à uma entrevista, dei-lhe logo o dinheiro. Ela, surpreendida com o valor, rapidamente me abraçou e abençoou minha vida. Parecia ter familiaridade com palavras de bênçãos; talvez com abraços também. A seguir disse que compraria um marmitex. Eu falei que o dinheiro estava em suas mãos para ela fazer o que quisesse.
Este encontro foi no final da Rua Rio de Janeiro, ao pé da passarela do Contorno, a avenida que abraça a parte planejada da cidade. Foi um encontro inesperado, não planejado. A Fernanda, a ousada abraçadora, com sua casinha improvisada debaixo da passarela, também não foi planejada pela cidade. Belo Horizonte era para ser apenas ordem e progresso. A graça ficaria de fora. Mas o abraço da avenida do Contorno não foi capaz de excluir por muito tempo certas pessoas. Na verdade, o legítimo abraço foi criado para não deixar ninguém de fora da graça, a não ser opte apenas pela ordem e progresso."

- Carlos França

53 anos, Belo Horizonte/Mg